Em fase de testes, a Ferrovia Transnordestina, do Ceará, já começa a mostrar o impacto que vai ter para a produção de gesso e gipsita do Sertão do Araripe, em Pernambuco
O Grupo Siqueira Mineração está planejando implantar um terminal para movimentar, principalmente calcário, em Ouricuri (PE), no trecho cearense da Ferrovia Transnordestina, que vai ligar a cidade de Eliseu Martins, no Piauí, ao Porto de Pecém, na Grande Fortaleza, passando por Salgueiro, em Pernambuco. “As conversas estão evoluindo para fazermos um contrato com a TLSA”, revela o diretor presidente da companhia, Francisco Siqueira. O documento vai definir as regras do que Francisco chama de “ponto de embarque”.
O terminal vai embarcar calcário e brita para o Sul do Piauí e do Maranhão, sendo que a primeira vai apresentar maior volume. A Siqueira Mineração já envia cerca de 40 mil a 50 mil toneladas de calcário por mês para o Sul do Piauí e do Maranhão por rodovias. “Já enviamos 3 mil toneladas de calcário. Estamos estudando a economia, porque estamos distribuindo a carga que chegou no Sul do Piauí, de caminhão, para as fazendas daquela região. Mas há um sentimento de que é economicamente viável”, diz Francisco.
De acordo com o empresário, ainda não está fechado o valor do investimento, porque está sendo feito um levantamento de toda a estrutura que será necessária, assim como também pode ser definida uma contrapartida da TLSA no futuro terminal. Empresa do grupo da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a TLSA está realizando as obras da Transnordestina no Ceará e que tem a concessão deste trecho da ferrovia.
Em fase de testes, as 3 mil toneladas de calcário, da Siqueira Mineração, já transportadas embarcaram em Ouricuri, no Sertão pernambucano do Araripe, e desembarcaram no Terminal Intermodal de Cargas do Piauí (TIPI) da TLSA na cidade de Bela Vista do Piauí, no Sul daquele estado. De lá, o calcário seguiu de caminhão para as fazendas daquela região – incluindo o Sul do Maranhão – que cultivam soja, milho e algodão e usam o calcário dolomita, que é rico em magnésio e cálcio. “Os solos do Piauí e do Maranhão são arenosos e precisam do calcário e do gesso agrícola que é rico em enxofre e cálcio”, explica Francisco.
A Siqueira Mineração também fez uma parceria com uma empresa de ração e já fez testes também trazendo milho do Sul do Piauí para abastecer empresas próximas a Iguatu, no Ceará. O Sul do Piauí é um grande produtor de grãos.
Ao ser questionado se o terminal de Ouricuri inviabiliza o terminal já previsto no projeto da Transnordestina cearense na cidade de Trindade, Francisco responde que há demanda para os dois terminais. “Em Trindade, os produtores que vão embarcar, incluindo a Siqueira Mineração, uma média, de 70 mil a 100 mil toneladas por mês, via estradas para o Maranhão e o Piauí”, comenta Francisco.
Atualmente, o trecho cearense da Transnordestina tem mais de 700 quilômetros prontos dos 1206 km que compõem a ferrovia. No Ceará, subindo no sentido do litoral, os trens chegam até a cidade de Quixeramobim. Já no sentido do Sul do Piauí, os trens vão até Bela Vista do Piauí. Ou seja, as duas extremidades do trecho cearense não estão prontas que são o trecho do Piauí que vai até Eliseu Martins e os últimos 180 km até chegar em Pecém. As obras do trecho cearense foram retomadas em 2023 e a expectativa é de chegar a Pecém em 2027.
“Jamais pensei em escoar nossa produção pela Transnordestina. A perspectiva é muito boa, porque quando a Transnordestina chegar em Pecém, vamos poder escoar gipsita in natura para fábrica de cimentos e dry wall. Quando isso acontecer, a gipsita do Araripe vai competir com a gipsita que vem da Espanha”, afirma Francisco. E complementa: “a partir de Pecém, a gipsita vai poder ir de navio para os portos de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Vitória, do Espirito Santo”, se referindo aos Estados que apresentam o consumo alto do produto.
Os produtores de gipsita e gesso do Sertão do Araripe chegaram a perder mercado por causa da concorrência com a gipsita vinda da Espanha que chega mais barata em várias cidades do Brasil do que o produto extraído do Araripe transportado por caminhões.

Projeto original da Transnordestina
As obras da Transnordestina, com o atual traçado, foram iniciadas em 2006. O lançamento oficial ocorreu em Missão Velha, no Ceará, sob responsabilidade da concessionária Transnordestina Logística S.A. (TLSA). O projeto começava na cidade de Eliseu Martins, no Piauí, seguia até Salgueiro, em Pernambuco, e depois se dividia em dois ramais: Salgueiro–Pecém e Salgueiro–Suape.
O trecho pernambucano, entre Salgueiro e Suape, ficou sem concessionária após a TLSA informar, no final de 2022, que não tinha interesse em concluir essa parte da ferrovia, devolvendo a concessão ao governo federal. Posteriormente, a Infra S.A., estatal federal, assumiu o projeto Salgueiro–Suape, que passou a integrar o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
A Infra fez uma licitação para a retomada das obras entre Custódia e Arcoverde do trecho pernambucano. O trecho Salgueiro–Suape possui 521,5 quilômetros de extensão e atravessa 27 municípios pernambucanos. Entre eles estão Serra Talhada, Arcoverde, Pesqueira, Palmares, Escada e Ipojuca, onde está localizado o Porto de Suape.


