COLUNA DE SEGUNDA | ELEIÇÕES BRASIL SERTÃO
Os números da eleição de 2022 em Pernambuco ajudam a entender uma pergunta que volta ao debate político: afinal, Raquel Lyra é de direita, de centro ou segue a mesma escola política que moldou a esquerda tradicional do estado?
Vamos aos fatos, olhando para os votos.
No primeiro turno para presidente, Jair Bolsonaro recebeu 1.630.938 votos em Pernambuco. Já na disputa para o Senado, Gilson Machado, nome diretamente ligado ao bolsonarismo, teve 1.320.555 votos. Quando olhamos para o governo do estado, Anderson Ferreira, também identificado com a direita, somou 890.220 votos. Raquel Lyra apareceu logo atrás de Marília Arraes, com 1.009.556 votos, garantindo vaga no segundo turno.



A lógica política tradicional diz que o eleitor ideológico costuma votar alinhado. Quem chega na urna para digitar 22 para presidente tende a repetir o campo político para governador e senador. Mas em Pernambuco essa matemática não fechou.
Bolsonaro teve mais votos que Anderson Ferreira. Gilson Machado também teve mais votos que o candidato ao governo da direita. Isso indica que parte do eleitorado conservador não seguiu a linha direta no voto estadual. Para muitos analistas, essa diferença abriu espaço para Raquel captar uma fatia da direita que buscava uma alternativa ao PSB, mesmo sem uma declaração explícita de apoio ao bolsonarismo.
O contexto emocional da campanha também teve peso. A tragédia pessoal vivida por Raquel na reta final gerou uma onda de comoção que ampliou sua votação. A diferença entre os votos da direita tradicional e o desempenho dela sugere que houve uma migração significativa desse eleitorado, não necessariamente por afinidade ideológica, mas por circunstâncias daquele momento.
E aqui entra a crítica política que começa a ganhar força agora em 2026.
Raquel construiu sua trajetória dentro de um ambiente político que dialoga com a mesma origem de lideranças do PSB. O pai dela já esteve no núcleo desse grupo, e o estilo de articulação lembra a escola que também formou João Campos. Embora hoje estejam em lados diferentes na disputa estadual, muitos observadores apontam que ambos vêm do mesmo berço político, marcado pelo pragmatismo e pela capacidade de dialogar com todos os campos.
Durante o segundo turno de 2022, Raquel evitou declarar apoio claro a Lula ou Bolsonaro. Essa postura ajudou a manter aberta a porta para votos de diferentes espectros. Agora, olhando para 2026, sinais semelhantes aparecem. Há acenos institucionais ao governo federal enquanto discursos voltados ao eleitorado conservador seguem presentes.
A pergunta que fica para o eleitor pernambucano é simples. A posição em cima do muro é sinal de moderação ou apenas uma estratégia para repetir a fórmula que funcionou em 2022, captar votos da direita sem assumir um alinhamento definitivo?
Os números mostram que parte da direita ajudou a levar Raquel ao segundo turno. Resta saber se esse mesmo eleitorado continuará enxergando nela uma representante dos seus valores ou se começará a cobrar um posicionamento mais claro no tabuleiro político de Pernambuco.



